Lavras do Sul
Fermino, o lobisomem, vivia seu eterno caso de amor com a quarentona Isaura, sua esposa. E foram felizes para sempre – sei que normalmente esta afirmação é encontrada no final dos textos, mas posso, desde já, dar ciência aos eventuais leitores de que a felicidade, de fato, acompanhou o casal eternamente, todavia, sempre há de se encontrar algum transtorno nessa vida e um, dos tantos, contar-lhes-ei por hora. Apareceu, certa feita, na vida dos meus personagens, um tal Coronel Nelci, vindo da campanha, mais precisamente, do município de Lavras do Sul, homem de muitas posses, dono de um bigode enorme e de uma barba cerrada, no melhor estilo Deodoro da Fonseca, contando lorotas e bravuras de todo o tipo, das suas armas de caça, dos seus cavalos crioulos e, principalmente, dos seus ferozes cães de guarda, Mastins Napolitanos, que eram, segundo ele, a fina flor da inteligência e da fúria. Contudo, alegando interesse nos serviços – quebra galho – de Fermino, o que realmente atraia o militar aposentado eram os impressionantes dotes físicos de Isaura, que, apesar da maturidade, mantinha-se firme, tesa e empinada, como uma guria. E as muitas visitas se sucediam, cuias de chimarrão iam sendo consumidas e Fermino, desatencioso, não se interessava lá muito pelos assuntos do velho, que consistiam, basicamente, em descrições minuciosas das características da raça de cães que Alexandre, O Grande, levou a Roma, séculos atrás. Já Isaura, fazia-se interessada e emprestava sua beleza à contemplação do velho barbudo até altas horas da noite, Fermino, muitas vezes, exausto, despedia-se e ia-se deitar, enquanto sua mulher permanecia fazendo sala ao visitante que imaginava mil e uma sandices, coisas que lhe vinham a mente por conta dos cabelos de ramada da coroa branca, da pele macia, das coxas grossas e da aparência extremamente sensual da gringa. - É o cão mais cabeçudo que existe, imagine, bela senhora, um cabeção enrugado, o couro da cabeça pendurado, a baba escorrendo pela boca, pronto para atacar, a qualquer momento, ao menor estímulo... Não que tenha sido fácil, mas com um bocado de insistência, o Coronel Nelci conseguiu, num domingo, arrastar o casal de Porto Alegre a Lavras na sua caminhonete quatro por quatro, afim de mostrar à Isaura sua impressionante matilha premiada. Fermino, no banco traseiro, não proferiu palavra durante o trajeto de trezentos e vinte quilômetros que havia entre a capital dos gaúchos e a pequena cidade. Lá chegando, na bem cuidada chácara do Coronel, próximo ao Balneário da Praia do Paredão, sentaram-se à sombra e puseram-se a saborear um vinho de laranja servido pelo anfitrião: - Um néctar produzido aqui mesmo, na estância, gabava-se o Nelci, sendo imediatamente correspondido pelos elogios de Isaura, que dizia, passando a língua nos lábios rosados: - Que coisa bem boa! Porém, Fermino, que desde sempre não via fundamento algum no passeio, com o vinho - “repunento” e doce uma barbaridade - pôs-se a dormir e roncar ao pé duma árvore, dando oportunidade ao Coronel de enfiar na quarentona um garrafão da bebida, entraram noite a dentro bebendo. E após um festival de gargalhadas geradas por um repertório de anedotas campeiras o velho ergueu-se de pronto e disse: - Venha comigo, bela senhora, vamos ver os Mastins! O canil era subterrâneo, muito bem higienizado, as paredes eram de cimento e o piso, de grama plantada, o teto, assim que o Coronel pressionou o botão de um interruptor, abriu-se, exibindo um lindo céu estrelado de campanha e uma lua cheia enorme. O Coronel trazia na mão um relho trançado e num gesto viril e militar feriu o solo com o estalar do couro cru, nesse instante os cães gigantescos e cabeçudos saíram todos de seus cubículos e puseram-se em guarda, feito uma bem treinada companhia de milicos. - E então, Senhora Isaura! Disse o velho, orgulhoso. A gringaça foi tomada, instantaneamente, por sensação terrível de medo e, dando as costas ao velho, dirigiu-se a escadaria de saída, dizendo: - Lindos, os cachorros, Coronel, mas acho melhor irmos, Fermino ficou lá e... - Deixe de asneira! Disse o Coronel, ao mesmo instante em que, habilmente, com um relhaço, fez levantar o vestidinho curto de Isaura e pode então ver que a bunda da coroa era ainda mais linda do que ele imaginava, branco rosada, saliente nos culotes, exibindo aqui e ali pequenas depressões, da celulite, mas, somente quando ela pisava firme o chão. Fermino acordou assustado, já era noite, Isaura e o velho haviam sumido, pôs de pé e iniciou uma disparada em busca da esposa quando foi surpreendido por um grunhido estrondoso... Dois monstruosos guardiões caninos o cercavam e se aproximavam, mal intencionados... Quando Fermino virava-se de frente para um deles o outro lhe atacava pelas costas e, depois de alguns minutos apenas de ameaços, Fermino foi atacado ferozmente pela barra das calças, e em seguida o outro pulou afim de morder-lhe o pescoço e arrancar-lhe as amígdalas... No primeiro o lobisomem só deu uma pisada, que com a força das unhas afiadas fez descer-lhe as tripas ali mesmo, no segundo ele deu um tapa, tipo uma cortada de jogador de vôlei, o cachorrinho caiu a uns dez metros de distância e saiu gemendo que nem filhote. O Coronel deu um segundo laçaço na grama e a cachorrada imediatamente cercou Isaura, todos em posição de ataque, rosnando baixinho, o velho Nelci ergueu novamente o vestidinho floreado da coroa, dessa vez de frente, a calcinha bem pequeninha, preta, quase sumia em meio a volúpia da bendita mulher.... O Coronel, com o cabo do relho, deu uma leve baixada na peça íntima e, nossa mãe, os pelinhos eram loiros... Uma algazarra de cachorros apavorados se iniciou no canil, fazendo com que o Coronel perdesse a paciência e arrancasse grama do chão com sete golpes furiosos de relho... Quando o velho deu de cara com o lobisomem pôs-se a vomitar vinho de laranja até pelo nariz... O bichão furioso meteu a mão na cara do Coronel e arrancou-lhe um chumaço da barba e do bigode... Contam que o Coronel Nelci perdeu o juízo e que nenhum de seus valiosos cães nunca mais foi visto em parte alguma.
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acho que era noite de lua cheia, prendeu meu olhar do início ao fim.
ResponderExcluirbeijo, meu querido!
Adoro seus detalhes.
ResponderExcluirMas desta vez você inovou no início do texto.
Interessante!
abraços
Oi Léo
ResponderExcluirAdore o sei conto, prende do princípio ao fim, sem falar no final surpreendente. Achei que o coronel ia se dar bem rsrsrs Parabéns.
Grande abraço
De tão perfeita, a narração me deu a sensação de que já vi esse coronel em algum lugar, seu Ferminio e D. Isaura, também.
ResponderExcluirIncrível mesmo, parece que todos os espíritos dos pampas baixaram em você. Eu só consegui ler com sotaque gaúcho.
Maravilhoso!!
Ps: Isso dá um filme, ou uma série.
Estou lendo o Ensaio Sobre a Lucidez de Saramago...
ResponderExcluirÉ impressionante como consegues trazer alguns dos elementos que o velho mestre também trás com maestria.
Eu confesso que com minha mente perversa fiquei cá a imaginar que o coronel ia pelo menos experimentar alguma coisa rsrs
Abraços!
teus contos de volta! que maravilha, gaúcho. e as leituras, como estão?
ResponderExcluire dá-lhe grÊmio! adorei a recuperação do teu time nesse campeonato!
aquele abraço!
Cheguei aqui pelo "Lavras do Sul" e me encantei por horas lendo teus textos.
ResponderExcluirSou moradora desta pequena cidade e fiquei feliz ao vê-la citada por aqui.
Um grande abraço
Não nos forçamos a ler teus textos, eles nos encaminham, vão abrindo caminho por entre os ambientes citados e acompanhamos tudinho, e reparamos em cada detalhe.
ResponderExcluirMe calo.
Tudo mais a ser dito seria reduntante diante do teu talento.
Beijos.