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terça-feira, 30 de novembro de 2010

A Psicóloga


"A psicologia nunca poderá dizer a verdade sobre a loucura, 
pois é a loucura que detém a verdade da psicologia".
Michel Foucault


Dra. Sílvia – Psicóloga. Tão somente o nome da doutora já me botava pimenta nos nervos: Sílvia, decerto era bonita. Existem diversos tipos de consultórios, odeio todos; os consultórios odontológicos são, disparadamente, os piores, não há dúvidas, as salas de espera dos dentistas são verdadeiros quartos do pânico, onde espera-se sempre o pior, assim como os consultórios médicos, ainda que nem tão terríveis quanto os odontológicos, também podem esconder muitas angústias. Mas eu me encontrava em um consultório de psicologia. Existe uma diferença considerável, a meu ver, entre consultórios médicos ou odontológicos e consultórios de psicologia, ainda que ambos me remetam ao terror: os primeiros me assustam pelo aspecto extremamente higiênico, pela brancura das paredes, do piso, do teto e das vestes dos funcionários e, sobretudo, pelo cheiro sufocante de alguma substância antisséptica que me causa a pior das fobias, o que me parece é que todo aquele aspecto hipócrita de asseio tem por objetivo esconder um ambiente macabro repleto de dor, morte e tripas ensanguentadas, até mesmo a simpatia dos atendentes e médicos me causa arrepios; já em se tratando da psicologia, meu medo é outro: não pense que por não haver sangue nem tripas ou pela ausência da brancura que minhas mãos não suam na antessala de um consultório de psicologia. Além do sufoco natural, causado pela pressão mental que os analistas exercem sobre os seus pacientes, nos forçando a revelar as podridões de nossas pobres almas, o que, particularmente, me deixa tenso é o tesão incontrolável que sinto diante da figura de uma psicóloga. Sempre me excito na presença de psicólogas e isso me causa um constrangimento tamanho, pois bem sei que elas leem a mente humana e podem perceber claramente que enquanto imaginam como é o meu interior psicológico estou perdido, divagando sobre o seu interior físico. Ali, sentado naquela poltrona confortável, frente a uma pintura abstrata que, não sei por quê, me remetia a luxúria e libidinosidade, eu punha-me a associar o nome Sílvia a longas pernas claras, sapatos de salto alto, saia curta, blusa com decote, colo jovem, rosto maquiado, cabelos bem tratados e bem cortados e bunda simetricamente perfeita. Nunca no decorrer da minha vida de depressivo tive a oportunidade de me deparar com uma psicóloga que não fosse dona de uma voz penetrante, a autoridade com que falam aos seus perturbados clientes, a superioridade que nos passam naquela hora de aconselhamento, tudo isso unido à beleza estonteante é de perturbar ainda mais quem já é por si perturbado. - Doutora Sílvia, o paciente a aguarda, disse a atendente ao interfone, despertando-me do meu devaneio sensual. Tratei de, desajeitadamente, controlar meus impulsos, respirei fundo, passei as mãos no rosto, corrigi as vestes, mas parece que quanto mais eu tentava me portar como um qualquer que possui perfeita sanidade mais minha postura se tornava desconexa, quanto mais eu lutava para endireitar a cara mais ela se entortava e minha boca e meus olhos tinham vida própria a ponto de vagarem desorientados face afora, as mãos, meu Deus do céu, eu não sabia onde diabos pôr as malditas mãos, iam pelos bolsos, pelos cabelos, pela ponta do nariz até que finalmente repousavam no último dos lugares onde deveriam estar naquele momento: no saco. Desnorteado, cravei os olhos estalados na porta que dava para o corredor de onde viria a mulher que me atentaria nos próximos sessenta minutos. Sei lá o porquê, mas as psicólogas sempre vêm buscar os pacientes na recepção e com um sorriso fantástico estampado num rosto perfeito estendem-nos a mão e saúdam-nos proferindo de forma angelical o nome que soa tão sublime que nem de longe lembra o nosso próprio nome. Quando ouvi o som de um taco de salto ressoar no ambiente a passos rápidos e precisos limpei rapidamente o nariz com a manga da blusa e dei três fungadas fortes para desobstruir por completo as vias nasais... - Olá! Era uma senhora de aparentemente sessenta anos de idade que me cumprimentava cheia de uma simpatia apassivadora. Relaxei tanto que a acompanhei com extrema tranquilidade e durante o trajeto por onde a segui até a sala onde deitei-me aliviado no enorme divã, pensei seriamente em abrir as portas do meu espírito sofrido àquela criatura agradável de tal forma que estava disposto a revelar-lhe todas as minhas mais profundas insanidades... Porém, quando a vi sentar, cruzar as pernas e pude mirar fundo os olhos enigmáticos dela, percebi algo de tão atraente que até hoje não sei o que era, e pensei comigo: - Que jovem gostosa não terá sido esta velha!

17 comentários:

  1. Eu estava com saudades daqui.
    Beijos
    Denise

    www.odeliriodabruxa.blogspot.com

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  2. kkkkkkkkk....incrível!!

    beijocas

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  3. kkkkkkkkkkralhoo!!!

    Se soubesses como eu gosto de ser surpreendido desse jeito...

    Muito bom. Além do habitual texto envolvente, acertaste no final com fina estampa.

    Abraços!

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  4. ôbá, gostei do meu nº de perseguidora... 200, rss

    Hoje vim só marcar lugar, está interessante esse teu espaço, pode deixar que eu volto.
    Abraço.

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  5. Léo,
    Vim agradecer a visita e conhecer teu canto gaúcho..
    Já te sigo!
    beijinho.

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  6. Ah Léo, ah Léo rsrs Milene, minha minina-ternura, que me perdoe, mas esse posso levar pro meu Divã virtual??? Pq na antessala do meu consultório vou deixar assim, displicentemente, entre uma revista e outra ("plastificado", com o nome do seu blog, etc e tal)...posso???? Você não faz ideia, a cada linha lida, os pcs que desfilaram em minha mente, as fantasias contadas após meses/anos de análise (e tomando coragem prá falar), as perguntas feitas etc, etc. Bauuuummmm dimaiiissss da conta, sô. E se não fosse pela década da "Dôtora" (um cadim a maisss rsrs) corria o risco inté de ser uma Sílvia psicanalista porreta (ia escrever outra coisa, mas pudia atiçar ainda mais suas fantasias rsrs) de minha Porto Alegre amada!
    Beijuuss n.c. e tô aguardando resposta, visse? (sou mineira persistente tumém!)

    P.S: sua crônica me fez lembrar de uma de L.F.Veríssimo, amadíssimo meu, tb sobre o assunto. Já leu?

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  7. léo Santos...
    Já era leitor de teus contos através da Milene.. Inté um dia disse a ela que gostava desse "sujeitinho" .. rsss
    Em face de tua visita e comentário ( concordo contigo se a moça encerasse o meu tômóve tabém ) eu pagaria as 300 Pilas... fácil , fácil..
    " Cara... Macaco ficô xítado com seu conto "... rss
    Proveito pra gárdecê e dizê que te admiro e de hoje em diante estou te perseguindo tbém...
    Um fapt
    Tatto

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  8. Oi Leo, vim retribuir sua visita e seu comentário tão gentil, e me deparo com esse texto adorável pela sua autenticidade.
    Já estou te seguindo com muito gosto :)
    Beijão

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  9. Oh, menino! Teus contos me deixam com um sorriso na alma... encantada! Grata pela visita.

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  10. kkkkkkkkkkkkkkkkkkk e eis aqui a Silvia hehehehehe

    Aiiiiiii leó, tu não existe!!

    Tava com saudade de tu viu!
    Sei que tbm ando ausente, mas pessoas queridas como você já tem morada definitiva no meu coração!

    Beijoooooooooooooo

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  11. O final não poderia ser diferente...rs
    Uma mulher de sessenta e poucos anos deve ter seu charme. Com certeza.

    BeijooO*

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  12. Obrigada por teu carinho em meu blog neste período que estive ausente. Me afastei, precisei, mas estou de volta.

    Aqui tudo continua muito especial...
    Um beijo querido gaúcho.. hehe

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  13. Texto interessante que me levou até o final sem parar pra respirar.
    Tu é quase o "Gérson" da novela Passione hahahaa
    Obrigada pelo comentário no meu blog, e pelas boas energias transmitidas.
    Vou esperar essa visita, não vais se arrepender, o carnaval é o MELHOR de todos!
    um abração

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  14. Voltei, pra dizer: Sim, o poeminha em duo até que ficou bonitinho, né? Também gostei.
    Beijos!

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  15. Voltei hoje prá dizer que já efetuei o furto (podia ser um depósito rsrs)e que sei (ou não sei?)que são personagens que vc cria (fica preocupadim nauuuummmm, sô)! Claro que o isso=inconsciente permeia tudim rsrs. Aqui, procê num cobro nada,,, dou (ops!)de grátis uma, quantas, sessões carecer!!!
    Mas agora sério (será que consigo???rsrs): não sei, não lhe conheço ainda tão bem para saber se brincava ou não com a "depressão"... É que essa doença é, muitas e muitas vezes, principalmente com a facilidade de acesso aos fármacos, deliberadamente confundida com tristeza! Já escrevi sobre isso tb (12/01/2009) logo quando comecei o blog...se interessar chega lá. E como poderá observar são assuntos, temas difíceis de abordar, escrever, sem perder o rigor teórico. Por vários motivos fui mudando o rumo da prosa lá no Divã, mas sempre que necessário escrevo sobre assuntos que são terrivelmente banalizados.
    Nooooossa Guri, tá na hora de tu me dizer: "por hoje é só" ou então "Ficamos por aqui" rsrs
    Beijuuss n.c.

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  16. Então as pobres sexagenárias não tem a menor possibilidade de estarem bonitas, elas apenas podem ter sido bonitas um dia??? Céus!

    Me lembre de não ser mais tua amiga aos meus 60 anos, tá?

    Pra variar, é possível acompanhar cada cena do teu filme em palavras.

    Beijo, guri.

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