Vale a pena viver - nem que seja pra dizer que não vale a pena...
Mario Quintana
A chuva anunciava lá fora que a vida é cheia de melancolias. E, solitário dentro do quarto, o homem que não tem uma razão de viver, ouvia e entendia, entediado. Havia dias em que não existiam livros nem poemas nem nada que fosse capaz de ocultar bem o tempo, e assim, iam-se as horas pingando do céu, escorrendo como as gotículas de chuva que brincavam na janela sob o olhar perdido do homem que não tem uma razão de viver. A cama, sempre desfeita, as nuvens, sempre sombrias, as roupas, sempre jogadas... O homem que não tem uma razão de viver não sabia o porquê de nada e há muito tinha já desistido de entender o sentido da vida, embora os que ouvissem falar dele jurassem que ele buscava incessantemente descobrir a verdade sobre todas as coisas, era um equívoco; o homem que não tem uma razão de viver não buscava nem procurava entender nada. E chovia... E perdiam-se as reflexões por incontáveis variações e linhas psicológicas, nuanças mentais que surgiam e sumiam infinitas entre desvios e descaminhos extremamente profundos e tortuosos, até os últimos confins de uma alma inquieta, contudo, apesar do muito pensar, o homem que não tem uma razão de viver não chegava nunca a conclusão alguma, era um tolo. A chuva, sinfonia triste que inundava-lhe o espírito, encharcava-o, deixando-o molhado, com frio e com vontade de chorar, mas ele não chorava, o homem que não tem uma razão de viver não reunia em si nenhum dos sentimentos nobres que são necessários para que uma lágrima se faça brotar no rosto de um homem, era frio como a chuva. O homem que não tem uma razão de viver não gostava de observar a rua de sua janela, magoava-se com a tranquilidade das pessoas que fugiam da chuva com suas capas e seus guarda-chuvas baratos, feito formigas tontas em meio àquele temporal, para o homem que não tem uma razão de viver todas as outras pessoas do mundo eram felizes. Nem mesmo os estrondos, trovoadas e relâmpagos eram capazes de interromper sua imobilidade permanente, parece que o homem que não tem uma razão de viver era uma pintura abstrata, imóvel e sem sentido. Dos sonhos nem lembrava, desde muito tempo não desperdiçava um segundo sequer com sonhos, um homem com muito dinheiro e muitas mulheres havia, tempos atrás, passado e levado embora todos os sonhos do homem que não tem uma razão de viver. E se a milhas e milhas dali alguém, porventura, se debruçava sobre os cotovelos a sonhar acordada com o amor vazio do homem que não tem uma razão de viver, lá se ia um pássaro encharcado d'água voar no azul até encontrar um pouso longe daquela tempestade de verão, levando no bico os versos e os delírios de loucos amores incondicionais – os amores do homem que não tem uma razão de viver... Tudo é muito relativo. Nada, nada, nada, absolutamente nada, guria, é absoluto!

"Nada, nada, nada, guria, é absoluto!"
ResponderExcluirAté a própria chuva, musa de devaneios vários, é transitória no seu efémero absoluto...
Abraço
Absoluto são teus posts... um mais lindo que o outro. Inspirador demais!
ResponderExcluirAqui chove horrores igualmente, Léo!
Beijão lindo e boa semana!
Não existe verdade absoluta, nem fato absoluto...Existem sonhos,reflexões...
ResponderExcluirExistem textos como os teus que nos fazem refletir;
Bjos achocolatados
Absolutmente lindo como sempre encontro aqui! abraços, tudo de bom,chica
ResponderExcluir"O homem que não tem razão vive o regime absolutismo, reinando sobre pilhas de coisa alguma."
ResponderExcluirA chuva aqui cai diferente, de forma mais otimista, depois de um calor absurdo.
Léo, esse seu texto lembra a segunda geração do Romantismo, a geração do "mal do século"
Excelente!
Oii Léo retribuindo a visita.. Que lindo seus textos moço, fiquei admirada. ''Tudo é muito relativo. Nada, nada, nada, absolutamente nada, guria, é absoluto!'' Muito boom mesmo, adorei seu espaço. Te seguirei com o maior prazer :)
ResponderExcluirLéo,
ResponderExcluirnada é nada.. mesmo!..
e a chuva.. cheira a cabelo molhado, correria..
absoluta!...
amei tuas palavras.
beijo.
Adorei tuas palavras.São mesmo muito inspiradoras e nos fazem pensar.
ResponderExcluirBeijos
Ahhh guri (ando íntima rsrs)... A vida boa, deliberada a partir de tais verdades absolutas, nada tem a ver com o amor. É isso mesmo que vc leu. Uma coisa é viver bem. A outra é amar. Os gregos nunca usaram a palavra amor. Pq não falavam português. Para Platão, amor é Eros, termo grego. Um diálogo inteiro lhe é consagrado. O banquete. O mais lido dos diálogos de Platão. O mais lindo tb. Na minha leitura. Eros, ou o amor, é definido por meio de uma compreensão simples. Amar é desejar. E desejo é sempre pelo que falta, isto é, pelo que não temos, pelo que não somos, ou pelo que não conseguimos realizar. Assim o autor arma sua sinuca. Quando desejamos e amamos, não temos o objeto do nosso amor. Mas, se por ventura, o que desejamos e amamos deixar de faltar, isto é, converter-se em presença, esta fará desaparecer o desejo e o amor que lhe corespondia. Bela tacada,vc não acha?
ResponderExcluirAssim, aquele que pauta a própria vida pelos amores acaba flutuando entre uma falta desejada e uma presença indesejada!!!
Beijuuss n.c.
Rê
"para o homem que não tem uma razão de viver todas as outras pessoas do mundo eram felizes"
ResponderExcluirQue texto mais perfeito!!!
Que final...
AMEI moço ;)
Beijo grande
Sua narrativa enleva. Excelente texto, meu amigo.
ResponderExcluirBeijo grande!
Olá!
ResponderExcluirObrigada pela visita. Li seu texto, muito interessante. Aqui chovia na hora em que escrevi a poesia sobtre a chuva e fala de uma história real.
Também estou seguindo seu blog.
Saudações poéticas!
Não ter uma razão pra viver é ter alguma ação no viver.
ResponderExcluirCadinho RoCo
Eu sei bem o que esse homem está sentindo...
ResponderExcluirE essa chuva que não passa, não passa de nada.
Excelente texto, Léo.
Bravo!
bj
Rossana
"Tudo é muito relativo. Nada, nada, nada, absolutamente nada, guria, é absoluto!"
ResponderExcluirConcordo contigo!
Adorei seu blog!
Textos muito bons!
E AMO a sua cidade!
Um forte abraço!
Léo,
ResponderExcluirvocê consegue passar um filme com as palavras.
Até parece estou assistindo tudo de camarote.
Imaginas isso? É bem por aí.
Amei.
Beijo.
Fernanda.
"E se a milhas e milhas dali alguém, porventura, se debruçava sobre os cotovelos a sonhar acordada com o amor vazio do homem que não tem uma razão de viver, lá se ia um pássaro encharcado d'água voar no azul até encontrar um pouso longe daquela tempestade de verão, levando no bico os versos e os delírios de loucos amores incondicionais – os amores do homem que não tem uma razão de viver... Tudo é muito relativo. Nada, nada, nada, absolutamente nada, guria, é absoluto!"
ResponderExcluirEstou com lágrimas nos olhos. Obrigada pelas tuas palavras, obrigada por ter ido lá em casa me visitar e me trazer, com isso, até aqui. Obrigada por ter escrito o texto.
Um abraço!
Suzana
Olá querido, tens um selinho pra ti no meu blog!
ResponderExcluirPassa lá!
Beijo enorme!
http://parentesesabertos.blogspot.com/
NOssaaaaaaaaa q lindo!!! adorei seu blog...seguindo!
ResponderExcluirDias chuvosos são dias de solidão, confusão. São dias pensativos em que percebemos tudo o que há de melancólico em nossos outros dias, sejam eles ensolarados ou apenas mornos, aqueles dias meios-termos sem graça, onde nada acontece.
ResponderExcluirChove aqui, também, mas do lado de dentro. Um eterno dia chuvoso.
Chuva é coisa que dita o ritmo, seja para a solidão, para os pensamentos soltos, para o sono, para o sexo.
ResponderExcluirChuva tem um Q de magia.
Eu gosto sempre.
Beijo, Léo.
ℓυηα
Vale a pena viver - nem que seja pra dizer que não vale a pena...
ResponderExcluirMario Quintana
também acredito nisso. Adorei.
Nada, nada é de fato absoluto, guri! Até o homem que não tem uma razão de viver, pode num átimo encontrar a sua...
ResponderExcluirMeu olhar inquieto leu cada palavra como a degustar a melhor das iguarias.
Abraços.