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quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O Voluntário

Porto Alegre, Verão de 2011.

- Me dá uma cachaça aí, moço, por favor! Uma coroa loira de um metro e oitenta proferiu essas palavras ao pé do balcão de uma bodega de quinta categoria, por volta das quatro horas de uma tarde em que o solaço parecia que ia derreter a cidade de Porto Alegre, após ter desembarcado de um carrão vermelho, rebolando um traseiro largo e bem cuidado – traseiro daqueles de fazer inveja a muita guria nova que tem por aí – entrou e espalhou seu perfume inebriante pelo ar. Em seguida, todos os presentes foram surpreendidos pelo estalo forte de um taco de sinuca que um indivíduo vestido com trapos encardidos deixou cair no chão por estar de boca aberta apreciando a loira, sendo que seu companheiro de partida, também encardido, nem foi capaz de fazer qualquer menção à continuação do jogo, tão abobalhado estava, admirando a beleza daquela dama de sociedade. Sabe lá Deus o que estaria ela fazendo naquele boteco imundo. A dondoca pegou naquele pequenino e vulgar copo de vidro com umas mãos tão alvas e macias, unhas bem feitas, dedos delicados e derramou o trago pela goela a dentro exibindo a todos uma careta que fez transparecer um bocado de rugas, pois já não era jovem, ainda assim trazia a face muito bem tratada, maquiagem perfeita, olhos esverdeados – era, sem sombra de dúvida, uma mulher bonita. Além de mim e dos dois encardidos, estavam presentes o dono do bar e um velho da barba sebosa que passava a vida a beber naquele estabelecimento, e eu nunca entrei ali que ele não estivesse no mesmo lugar: sentado num banquinho, escorado na parede, junto à porta de entrada. A mulher disse: - Ui! me dá outro, por favor! e desatou a mexer na bolsa de grife trazida a tira colo, pelo ruído podia-se perceber que ela trazia de tudo um pouco ali dentro, depois de algum tempo em que demonstrou nervosismo e ansiedade, sovando e arregaçando aquele couro dourado, tirou dali uma carteira de cigarros e pediu fogo ao dono do bar, que saltou tropicando por cima de uma caixa de garrafas no desespero de servir com presteza a nobre senhora. A madame deu uma tragada profunda no cigarro, soltou uma baforada, empinou o segundo copo de cachaça, franziu a cara novamente e fazendo-se observar por todos, bradou: - Quero pôr um par de chifres no desgraçado do meu marido, quem aqui pode me ajudar? Um dos encardidos grelou o branco dos olhos para o dono do bar que, mortificado, fincou os olhos no outro encardido que, abismado, não tirava os olhos da mulher que, insinuante, pôs os olhos bem dentro dos meus e deixou-se estar me encarando e eu, atônito, perplexo, estupefato... O velho da barba sebosa ergueu muito educadamente a mão, como faz um aluno em tempos de colégio, oferecendo-se como voluntário. A mulher jogou sobre o balcão uma nota de dinheiro, calçou bem a bolsa sobre os ombros, pôs o cigarro no cinzeiro e passando pela porta, disse: - Pois, bem! E foi puxando o velho bêbado pela gola da camisa fedida, jogou-o dentro do carrão vermelho, bateu com a porta e saiu cantando pneus. Juro, caro leitor, juro. Até o dia de hoje não pude me perdoar por ter, naquela tarde, ficado apenas atônito, perplexo, estupefato...
Agradeço a Jozi
que me ajudou a revisar este texto.
Visite-a!

30 comentários:

  1. Pois é meu caro, às vezes um simples levantar de um dedo pode mudar muita coisa de nossa história [ou não], mas só o descobrimos fazendo!

    Beijos pra Ti

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  2. Nussa! Ela tem o mesmo problema do Gerson da novela paccione, éca!rs...
    Bom texto como sempre, prende a atenção. Tem muita gente louca nesse mundo. Sorte dos bebados fedidos e azar de quem não crê na loucura! Desejo pra voc~e um 2011 de muita inspiração, criatividade, alegria,paz, saude e muito amor pra regar tudo isso. Montão de bjs e abraços

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  3. Então... eu vejo seus contos ganhando mais força a cada dia, vejo uma independência literária [sabe aquele velho papo de Machado de Assis...]Você tem se libertado e procurado seu próprio estilo, consegue como poucos, num conto, sustentar uma idéia fascinante.
    É isso, gosto muito da forma que você escreve e gosto muito de você.
    Beijo

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  4. Léo do céu! kkkk..
    maravilha hein!.. eita gaúcho persistente de bom..
    beijo no coração..

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  5. Hahaha. Muito bom os seus contos. Foi pela Jozi q vim parar aqui, tb agradeço. Bjs

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  6. E a minha orta continua seca que só um deserto, snif!
    Abraços.

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  7. Oi,Léo.
    Obrigada pela referência da revisão e pelo convite à visita. Sintam-se todos convidados a conhecerem O Lugar das Cores Escritas.
    Agora, foi uma satisfação enorme passar um eito da tarde no teu texto. Foi divertido, prático e envolvente. Conte comigo sempre. Sucesso aí.
    Abraços,
    Jozi
    www.olugardascoresescritas.com

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  8. Ei Leo!

    Gostei do seu conto! Prende o leitor do começo ao fim, gosto da riqueza de detalhes..

    Bom ter vc por lá!! Bjsks!

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  9. Incrível tua capacidade de criar e inventar ...Lindo conto! abraços,chica

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  10. Ficou de bobeira, dançou...
    :)
    Ótima crônica, Léo!
    Super bem escrita, divertida, leve e fluente.
    Boa de ler.

    Parabéns, querido!
    Bom 2011!

    Rossana

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  11. Estas cachaças são fatast iC as!
    Te fazem bem, pois criaste um texto genial,
    só fico com um misto de pena e inveja do "barba sebosa".


    Ah! ah! ah! ah!

    Abraço-tchê!

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  12. Oi Léo, so passei para agradecer la visita a meu blog. Interessante e eclectico seu blog!
    Logo, voltarei para lhe dar o tempo que merece.
    Jean-Louis.

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  13. Leo...olá...
    venho lhe convidar para, comemorar comigo durante esse mês o aniversário de 2 anos do Blog "Reflexões"...
    Sua presença para mim será motivo honra, e alegria....!!!
    Te aguardo por lá...
    Grande Abraço...

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  14. rsrsrsrsr... morri de rir! Muito bom texto. E vc veja, um movimento de dedo poderia ter mudado a história toda... rs
    Vc escreve muito bem, envolve o leitor e tem um ótimo arremate. O caminho tá todo aberto pra vc.
    Parabéns.
    Vai visitar meu blog, guri, ficaria muito feliz.
    Beijokas.

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  15. Tem oportunidades que são únicas na vida ;)

    Ahan.. depois dessa, nem se atreva entrar no meu recinto dizendo que o link é errado! kkkkkkkkk

    Obrigada por teus carinhos em meu blog!
    Beijos

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  16. Guria grandona, heim? Grandona e cachaceira a fulana! Confesso aqui entre nós dois que já tomei cachaça assim, nesse naipe, num gole só, e queimou tudim dentro de mim.

    É bão vez em quando.

    Bom... Vamos às redundâncias: Ler você é se inserir no ambiente que estás narrando, guri. Somos todos espectadores dos teus fatos.

    Beijocas!

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  17. mudanças por aqui, gaúcho!

    mais azul e tal, coisas de gremista :)

    e teu texto com a qualidade de sempre.

    deixa de mimimi e assume toda literatura que tu sabes e conheces, lendo-a e fazendo-a.

    abração!

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  18. Amigo, saudades de vc!! Ando sumida tb né!! Essa barriga, toma mto meu tempo sabe! rsrs

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  19. A tua imaginação e capacidade de narrativa é excelente. Pois é, bastava levantar a mão... Parabéns.

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  20. Faço minhas as palavras do Í,ta.
    COisa boa tudo isso, uma nota preta vale!
    Abraços,
    Jozi
    www.olugardascoresescritas.com

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  21. um dedo, uma birita e o mundo renasçe ou não por copo de pinga

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  22. Léo,
    você é d+!!!
    Amo teus textos é incrível, como me deixa mais sábia.

    Beijo menino.
    Fernanda.

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  23. Rs...de onde a gente menos espera...

    Um beijo, moço.

    ℓυηα

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  24. Leo, já havia retribuido a visita, mas estava sem tempo de ler seus escritos, só hoje pude me dedicar a lê-los, muito bom!
    Voltarei mais vezes!
    abs
    Jussara

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  25. Gostei daki!
    Criativo... Parabéns !
    Beijo

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  26. Um lindo final de semana!
    Beijos meus

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  27. Nem sempre as oportunidades são nossas...Gostei do teu texto é bom de se ler.
    Obrigado pela tua estada em meu mundo, os pesadelos por vezes são necessários...
    Pérolas incandescentes de inspiração aqui deixo.
    Eärwen

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  28. Leo,
    Eu gosto MUITO de tudo que você escreve.Adorei o texto.
    Um beijo
    Denise

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  29. Para ser poeta basta ser sincero, escrever o que sente, amar o que realmente deseja, e esquecer a beleza superficial das palavras que formam a poesia, pois se verdadeiro é o seu sentimento, puro será seu coração...e lindas serão suas palavras!

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