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sábado, 22 de janeiro de 2011

Um Crime Excêntrico

Porto Alegre, Verão de 2011.

Após alguns minutos imóvel e reflexivo diante do tão excêntrico cadáver, o tal delegado voltou-se para mim e disse: - Que tipo de relacionamento havia entre tu e esta senhora, meu jovem? Meus olhos estavam ainda semiabertos, podia-se ver claramente pela minha cara que eu ainda dormia e não tinha acordado para aquele pesadelo: - Nada, seu delegado, nenhum relacionamento, eu estava num bar e ela chegou, só isso, pediu pra se sentar e pagou toda a despesa... - Pera aí, guri! tu tá me dizendo que a conheceu nesta noite? retrucou a autoridade, puxando, imediatamente, do bolso, um bloquinho e uma caneta. Comecei a suar na sola dos pés – quando meu pai me intimava, questionando-me sobre alguma arte de infância, meu primeiro sintoma de nervosismo era o suor na sola dos pés: - Sim, doutor, ela me trouxe pra cá, e foi tirando a roupa, eu nem queria entrar, mas ela disse que o apartamento era dela, delegado. Eu juro! ela disse que era dela, até chave ela tinha, eu juro... - Tá, tá, tá! acalme-se, rapaz! o apartamento era dela sim, aliás não só o apartamento, mas o prédio inteiro. Fiquei pasmo. O policial prosseguiu: - O senhor se lembra do que ela dizia? - Sim, lembro sim, assim que ela entrou, disse: - Olhe bem pra mim, guri, tu nunca me esquecerás. O delegado recebeu aquela informação com os olhos arregalados, como se tivesse visto um fantasma ou coisa parecida: - Ela lhe ofereceu dinheiro ou alguma coisa, moço? Cheguei a me perguntar duas ou três vezes, antes de responder, se deveria ou não dizer a verdade, mas diante de uma situação tão delicada, fui sincero: - Bem, doutor, enquanto se despia, ela arrancava as joias do corpo e as jogava na minha cara, dizendo: - Fique com o ouro, que eu prefiro a eternidade. - E onde estão as tais joias? indagou-me. Apontei para o meu velho par de tênis que fedia, jogado aos pés da cama, recheado com um punhado de correntes e pulseiras. - Por que as escondeu? tornou a me indagar, cada vez mais intrigado. - Ela me deu, doutor, jogou pra mim como se não valessem uma moeda, se desfez, eu não escondi, delegado, só guardei, sou pobre, doutor, sou um coitado e... - Entendo, rapaz, entendo, mas me diga: vocês fizeram o que depois? - Nós transamos, doutor! ela estava desvairada, parecia possuída por algum espírito, gemia e gritava feito uma louca, pedia para que eu pusesse... - Me respeite, guri! pela primeira vez o delegado fez cara de brabo, me agarrou forte pelo braço e questionou: - E quanto tempo durou essa brincadeira? - Umas quatro horas, respondi. O homem levou as duas mãos ao alto da cabeça como fazem os torcedores quando o time do coração sofre um gol: - Quatro horas, meu Deus, quatro horas! - Sim, quatro horas – confirmei. - Meu querido, por acaso tu sabias que esta senhora morta aí, na cama, tinha um estado clínico muito delicado e que estava terminantemente proibida pelos médicos de praticar qualquer atividade sexual pelo resto da vida? Eu bem sabia que aquilo era uma interrogação, mas não fui capaz de responder, fiquei mudo e surdo, olhando o delegado mexer com a boca e fazer gestos agressivos, mas eu não entendia nada. E em minha mente se repetiam infinitamente as últimas palavras da mulher: - Ai, me mata, me mata, guri, que eu morro agarrada em ti!

20 comentários:

  1. muito bom Léo.. muito bom!
    beijos gaúcho..

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  2. Boa noite.
    Adorei esse texto.

    Estou lhe seguindo. (Maria Auxiliadora) Amapola.

    Um grande abraço.

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  3. O delegado ficou com inveja das quatro horas...

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  4. Ela morreu aberta às possibilidades da morte...

    uma boa forma de se morrer

    Abraços, meu caro e sempre ótimo Léo!

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  5. Belo post!

    Belo blog...

    Parabéns, muito bom!!!

    Convidaria vc a conhecer minha poesia..
    Ficaria feliz demais!!! http://mailsonfurtado.com

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  6. Saudades de ti!
    Visitar você é uma alegria para mim!
    Tenha uma linda semana!!!
    _*_*_*_*________*_*_*_*_
    ___*_________*___*__________*
    __*____________*_____________*
    __*______ ___VOCÊ____________*
    ___*___________É____________*
    ____*_______MUITO_______*
    ______*____ESPECIAL__________*
    ________*_ PARA MIM________*
    __________*__________*
    ____________*_____*
    ______________*--*
    _________________
    Beijocas, muitas!
    Sônia Silvino's Blogs
    Vários temas & um só coração!

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  7. cômico se não fosse trágico, rsrs
    Mas quatros horas mata qualquer sedentário...

    Bjs Leo

    Mila

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  8. Caramba Leo,
    O história foi boa, que garoto incrível esse rsrs.
    Um beijo
    Denise

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  9. Leo, uma historia incrivel, criativa, envolvente e muito bem arquitetada. Fiquei imaginando essas cenas por vc descrita sendo interpretada. Vale a pena hein!! Parabéns!!

    Abraço

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  10. Uma ótima história. Sem dúvida. Só ele pra criar uma dessas.

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  11. Pelo menos é uma forma gostosa de morrer, melhor que atropelado por um taxi rsrsrs Parabéns pelo texto.
    Bjux

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  12. Belíssimo texto. Prendes bem o leitor.

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  13. O guri deve ter sido escolhido a dedo, bem podia descrevê-lo...rs
    abs
    Jussara

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  14. Ei guri!

    morrer assim é o ceu..rs


    boa..

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  15. "...Que morro agarrada em ti foi ótimo". Não é possível que esse cabra não tenha ficado nem por um tempinho traumatizado com a situação, né? Acho que ele não vai mais querer ficar 4 horas com mulher alguma, com medo de se tornar um sexual-serial killer, se é que isso algum dia existiu.

    Ler você é todo o tempo prazeroso, Léo Santos, tu bem sabes.

    Beijos!

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  16. Bah, mesmo sendo ainda um guri senti medo, depois calor, e depois do depois uma coisa que não sei explicar direito, mas que é bem boa!
    Ah, se ainda não me conhece, tem a apresentação de minha ilustração lá no blog da construtora de Palavras.
    T+, índio véio!

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  17. LEOOOOOOOOOOOOOO

    Havia um coração e pouca bobagem dentro de mim
    Algumas folhas em branco e que de tão branco e leve, voou
    Fazia um vento leve em leque
    Canetas esquecidas sobre a mesa
    E no mesmo baú velho, acorrentado em minhas delicadezas
    Um rosto de mulher
    Mas não era assim mais tão triste
    Sapatos à beira da cama
    Um vestido de burganes na cor rosa cetim
    A flauta
    Antiga flauta que já nem mais soprava sua esfera em dor
    Meus cotovelos sobre a mesa da saleta grande
    A ópera batia firme em uma vitrola antiga
    Tempo de meu velho avô
    Que de poeira escorregou-se e quebrou na banqueta da sala
    Sala-mor de meu inventado
    Calado
    Verso silenciado.

    Maria Sofia

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  18. Olá!
    Te ofereço um Meme Literário!
    Passa no meu blog buscar!
    Beijos meus

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