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segunda-feira, 14 de março de 2011

Seu Eli

Porto Alegre, declínio de Verão, 2011.

O Seu Eli, já falecido, era um velho muito gaúcho. Não sei que idade ele tinha, mas sei que contava histórias encantadoramente antigas. Da emancipação do lugar, Vila Sul, dizia: - Terras de meu pai. Tinha dois temperamentos, um lúcido e um ébrio. Na lucidez, gostava de negros: - Essa negrada é de fundamento. Embriagado, baba-se aos urros: - Não tem um que não seja ladrão. Nunca vi pessoa pra gostar mais de pelejas. Trazia o trabuco sempre na cinta e não custava muito pra puxar. Ao menor dos desaforos: - Deus que me perdoe! Sua esposa, Dona Rosinha, pouco fez caso do acontecimento que venho contar. Fatos ocorridos uns dias antes da morte do bagual. Dizem: o delegado reuniu a tropa para, a custo de bala, ir prender o homem velho que, cheio de cachaça, havia feito “bruzuras”, inclusive disparando tiros ao ar. - Atenção, sentido! soube que ele está em casa agora, vamos ver se conseguimos entrar e pegá-lo. Eram sete homens: o delegado, um sargento e cinco soldados armados. - Vamos chegar devagar. Todos meio acocados, organizados, cochichando entre dentes: - Temos que gritar com ele. O delegado fez um gesto parecido com o “antecantar” dos galos: - Salta pra fora, Eli, queremos falar contigo. Um ajuntamento grande começou a rodear a casa, na mais vil das curiosidades. Que profunda sensação de silêncio houve, parecia um velório. Não obtendo resposta, o delegado tornou a gritar: - Só queremos conversar. Mais um tanto sem barulho e o resmungo veio: - Podem entrar. Fazendo-se desentendido, o delegado soluçou: - Quê? O Eli replicou: - Passem pra diante, a porta tá só encostada. Mudos, entreolharam-se os soldados, falando com os olhos. O delegado retirou o quepe, coçou a cabeça: - Mas, Eli, tu tem que vir aqui fora, homem. E maltratado por mais uns instantes vazios ouviu: - Capaz, deixem de cerimonia! ué sai! a casa é nossa, delegado. Inseguros, os militares tremiam e a “gentarada” que apreciava o causo silenciou, escutando: - O que é isso? venha com seus homens! vamos tomar um mate! faz horas que eu quero falar com o senhor, delegado. - Não sejam bobos! quero muito que vocês entrem! façam-me o favor de achegarem-se. - Ora, passem pra diante! é uma honra recebê-los! não me levem a mal. A risadagem do povo foi forte quando o delegado decidiu-se: - Batamos em retirada.


Revisado por Jozi.

4 comentários:

  1. Senti falta das descrições dos teus personagens, que em outros textos praticamente nos fazia visualizá-los... Mas tá bacana. Meu avô, Seu Eli, Pedro... Criar grandes figuras é contigo mesmo, guri.

    Beijos.

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  2. Olá adorei teu blog, lindo mesmo. Parabéns. Fique a vontade para fazer uma visitinha ao nosso “Alto-falante” e seja mais um membro. Você é nosso convidado especial. http://poetarenatodouglas.blogspot.com/.
    Um grande abraço!

    Renato Douglas!

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  3. Uma ótima semana pra ti Léo!
    beijos meus

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  4. Vai ver o Seu Eli já sabia que estava na hora de bolear a perna. Não iria morrer preso, que vergonha para um gaudério. Além do mais, o velório certamente contou com a presença ilustre de um Delegado, um sargento e cinco soldados (desarmados).

    Abraços do Gaúcho.

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