Porto Alegre, Outono de 2011.
Sabia que a esposa o traía, só não queria que lho revelassem. Por volta das três da tarde, no escritório, foi surpreendido por um recado, digamos, chato: - "Fernando, estou indo aí agora, preciso falar contigo, é urgente!" Era seu primo, o Flávio - que há muito tentava desmascarar a esposa de Fernando. Não haviam sido poucas as vezes em que Flávio tentara expor suas desconfianças ao primo, porém Fernando fugia feito uma lebre e não se deixava alertar jamais. - Dona Alice, por favor! chamou a secretária pelo interfone. - Pois não, Dr. Fernando. - Faz quantos minutos que a senhora recebeu esse recado? - Cerca de meia hora, doutor. - O quê? Meia hora! Fernando deixou transparecer tanto terror em sua face que acabou assustando a pobre moça: - Mas, doutor, o senhor estava em reunião e... - Fique calma, Dona Alice – a muito custo, fingia tranquilidade – só lhe peço que em se tratando de meu primo Flávio, transmita-me os recados imediatamente, interfira nas reuniões se for preciso, “mas me mantenha a par das intenções desse ordinário” – confesso ao leitor que meu personagem não chegou a proferir a oração entre aspas, embora a tenha pensado. Assim que dispensou a presença da secretária deu de mãos no telefone: - Alô? tudo bem, Dona Sílvia? gostaria que a senhora informasse a meu primo, o Flávio, que eu estou saindo agora, à tarde, para uma viagem e não poderei recebê-lo, mas não faltarão oportunidades... o quê? ele saiu faz vinte minutos? ah, sim... já deve estar chegando aqui? ok, obrigado, Dona Sílvia, muito obrigado! Repôs o telefone no gancho, foi até o cabide, vestiu o paletó e ajeitou a gravata. Pegou sua maleta e chaveando a porta do seu cubículo, dirigiu-se à sala do Diretor. - Sinto muito, Fernando, mas você não pode sair agora, os japoneses estarão aqui em questão de minutos, esqueceu? você é o palestrante! - Mas chefe... - Não quero saber, Fernando, se tivesses me avisado antes... mas agora não dá, simplesmente não dá! Saiu da diretoria e se foi corredor a fora, a passos largos, decidiu sumir de dentro daquela empresa a qualquer custo. Quando estava chegando ao final do saguão, viu abrirem-se as portas do elevador e de dentro surgir uma corja de japoneses, todos iguaizinhos com seus ternos pretos e seus óculos de grau, exceto um sujeito que vestia calça jeans e tênis. - Que droga! é o Flávio. Fernando deu as costas e foi saindo em direção ao outro lado, onde poderia tomar o elevador de serviço, antes de virar a curva, ainda pôde ouvir um berro do primo em meio ao bate-boca ininteligível dos empresários orientais: - Fernando! Dois funcionários tentavam enfiar uma mesa enorme dentro do tal elevador quando Fernando chegou desesperado dizendo: - Com licença, com licença... Entrou e desceu direto para o subsolo, porém não conseguia encontrar a chave do carro, metia as mãos pelos bolsos da calça, do casaco, da camisa, abriu a maleta e pôs-se a escarafunchar em meio à papelada até que, descontrolado, espalhou a coisarada toda pelo chão e não encontrando a maldita chave, começava pisotear os documentos quando ouviu um som: - Plim! Virou-se para o mostrador do elevador e sentiu um arrepio nas vértebras ao visualizar uma contagem regressiva. O Flávio estava descendo, precisava sair dali. Subiu pelas escadas até o térreo e, saindo à rua, abordou um táxi. - Pra onde, patrão? - Vamos embora daqui, por favor, pra qualquer lugar. Mal o motorista arrancou e já o Flávio apontou na porta da empresa: - Fernando! Fernando! Fernando! Era tarde demais, o táxi foi seguindo pela avenida, deixando pra trás a imagem nervosa do primo. Algumas quadras adiante, parado numa sinaleira, Fernando viu Flávio descer, indignado, da carona de um motoqueiro, dar um soco no vidro do táxi e gritar: - Fernando, tu é corno!
Texto gentilmente revisado por Jozi Fleck
Oi Léo
ResponderExcluirMuito bom o texto. O pior, é que tem cara exatamente assim. Prefere ficar na ilusão do sucesso que na certeza do fracasso. Também um primo desse ninguém merece.
Abração
hehehe... Sempre tem alguém para estragar a "paz" fingida de alguém e revelar o óbvio. Há certas coisas que ninguém deve se meter mesmo.
ResponderExcluirBacana, moço!
Beijinho.
Tem gente que mesmo vendo o chifre florescer não quer se dar conta disso.
ResponderExcluirbj
A D O R E I
ResponderExcluirAbraços e Sonhos
Por favor, em um próximo conto, me vingue o Fernando. Pois, o que o Flavio não sabia era que Fernando não comparecia, e em um acordo selado, de gentil cavalheiro, deixava a amada, plenamente se resolver.
ResponderExcluirbjs
adorei o texto.. vc escreve de uma forma que prende a atenção.. tadinho dele.. se queria continuara assim porque estragar isso? rsrs é dificil encarar a realidade ..beijo
ResponderExcluirNão queria encarar...Lindo conto,sempre aui!abraços,chica
ResponderExcluirHahaha esse gosta de ser
ResponderExcluiròtimo seu conto. Beijos Leo!
Isso que eu chamo de um primo chato e determinado também com certeza.
ResponderExcluirFiquei na torcida pra ele nunca conseguir contar... Era da vontade dele permanecer na pseudo inocência, oras! As pessoas tem que saber respeitar mais a vontade das outras e serem menos inconvenientes.
ResponderExcluirFlávio chato!
No mais, o Léo de sempre, que me permite estar no cenário das suas histórias, acompanhando cada passo, quieta, quase esbarrando nos personagens, tão real é a narrativa.
Abraços.
Muito legal mesmo, só prova que nunca poderemos fugir da realidade que nos cerca.
ResponderExcluirAbs
seu corno!
ResponderExcluirhauahuahauahau
Mudei a morada do blog para : www.umnovoinicio.blogspot.com
ResponderExcluirkkkkkkkkkkkkk, adooooreeeei!
ResponderExcluirA verdade dói, né?
beeeijooos
Um texto otimamente escrito, como sempre.
ResponderExcluirVoltei ao ambiente blogosférico e estava sentindo falta das boas criações que sempre encontro por aqui.
Beijos
Hola amigo!
ResponderExcluirMuito legal seu conto. Adorei!
Tenha uma excelente semana.
Olá, faziatempo que não vinha aqui.
ResponderExcluirGosto da sua irreverência,rs.
Beijo na alma
Suadações Poéticas!
Oi =) pra quem não lembra eu sou a Amanda Romero do Keep Breathing e estou reabrindo o blog. Fiquei um tempo sem escrever por falta de tempo, mas quem escreve sabe que quando não se coloca essas palavras pra fora a mente vira um furacão.
ResponderExcluirTem post novo (http://amanda-romero.blogspot.com/2011/06/o-problema-voce-nasce.html)
e se gostar da uma olhadinha no resto do blog =) http://amanda-romero.blogspot.com/
Obrigada.
/Confesso que li rindo. Realmente, tem gente que prefere ignorar a verdade pra não sofrer. O ruim é que dependendo da verdade, ignorá-la só traz mais prejuízo, né?
Leo,
ResponderExcluirEu acho que já falei isso, mas vou repetir. Você escreve muito bem, gosto muito dos seus textos.
Um beijo
Denise
Suas personagens parecem pessoas reais. As situações também, con sua carga psicológica. Coincidências entre a ficção e a vida são perfeitamente possíveis. Gostei, Leo
ResponderExcluirOlá!!!
ResponderExcluirA quanto tempo...
Só passei pra deixar um abraço de FELIZ NATAL!
Lhe espero sempre!
NATAL... Ô Gonócio totozo... sô!!!
ResponderExcluirQue o Barbudinho aniversariante e o outro barbudinho gordinho trazam muita felicidades, Paz, Amor e muiiiiiita saúde pra ocê e tudus os teus.
São os votos do Tatto e Xipan
Deusssssssssskiajude
P.S.- Esta mensagê é fruto da minha ôtoria e foi escrevida em, ( crtl+c = crtl+v ) descaradamente... rss